A cidade da fronteira

É o quarto mais simples até agora. Sem cama de casal, sem ar condicionado. E o mais barato, também. A vila se parece com qualquer aglomeração que se forme a partir de uma estrada, de uma conjuntura geográfica. Pela primeira vez desde que cheguei à Tailândia sou o único ocidental. O trajeto que me conduz a Mae Sot leva cinco horas. Ao nos aproximarmos, o ônibus começa a descer em meio a uma floresta de árvores esquálidas e solo queimado. O cheiro de incêndio invade o ambiente climatizado. Passamos por um caminhão que acaba de tombar, e voamos debaixo de barrancos muito frágeis. Os rios estão secos sob a aridez rosácea das colinas. Somos obrigados a parar em um controle de Imigração. É o primeiro de muitos.

A minha amiga alemã me disse que para entrar no campo talvez eu precise subornar alguém. Falou das milícias dos refugiados Karen, das milhares de minas que aguardam na margem do rio que divide Myanmar e Tailândia como sementes negras ansiosas para brotar.

A pousada é silenciosa. O proprietário me pergunta se sou muçulmano. Com um aceno reiterado, indica um bom restaurante. Confirmo se o wifi é bom. É bom. O quarto vai ficando triste à medida que escurece. Com um mapa fotocopiado que o dono da pousada me entrega, saio para caminhar. A maioria dos comércios já correu as portas metálicas. A cada três ou quatro quarteirões um alto-falante ecoa uma canção pop ou uma música de teor ufanista. Uso chinelos e não consigo caminhar muito. Meu pé ainda está um pouco inchado. A cidade é deserta, aparte a sensação de preenchimento que automóveis grandes, bicicletas e scooters provocam. Já vejo alguns farangs, provavelmente voluntários de ONGs ou gente que irá até a fronteira para renovar os seus vistos de turista. Pelo mapa, um escritório das Nações Unidas fica a algumas quadras ao sul. Adentro um mercado noturno um tanto decadente, barracões de zinco iluminados por fosforescentes brancas e lonas vermelhas da Coca-Cola forrando mesas e cobrindo paredes mofadas. Em duas mesas dispersas entre as motos estacionadas, mais grupos de farangs. Provavelmente o lugar onde têm cardápios em inglês. Sento-me de costas e peço um frango ao curry vermelho, arroz de jasmim e uma garrafa de Chang. Ao meu lado, peixes em ganchos sob a luz hospitalar atrás de uma vitrine conferem um ar de necrotério ao lugar.

Por que me incomodam tanto estes gringos? São tão inteiros. Falam tanto, e sempre com tamanha cumplicidade. Constato que não posso falar deles. Não tenho a menor isenção. Sei que vou encontrar em Mae Sot uns norte-americanos que fazem voluntariado para preencher o currículo, pelo heroísmo que tanto lhes caracteriza, porque o mundo fora dos u.s.a. é uma circunferência de parques temáticos, porque é tão lindo posar com um sorriso caridoso enquanto se é abraçado por uma legião de crianças afetivamente famintas. Que belas histórias esses gringos não contarão em casa.

No dia seguinte, alugo uma bicicleta e vou até o café Borderlines. Vejo a exposição dos imigrantes, como um prato tradicional de Myanmar que poderia passar por um prato tradicional tailandês. Ao meu lado, um grupo de chineses neutraliza a tranquilidade do jardim. Na outra mesa, uma inglesa conversa por Skype com uma amiga que está na Austrália. Continuo rodando para descobrir as tais ongs, e não encontro nada. Volto para a pousada para aprofundar a pesquisa. Deixo uma mensagem para uma ONG situada em Myanmar. Em quinze minutos o secretário da instituição me liga. Desculpo-me pelo inglês falho, que se acentua ao telefone. Prometo enviar as perguntas por e-mail. Ele não parece nada incomodado. Faço as pesquisas sobre o sumiço do avião da Malasya Airlines, e já faminto, vou atrás de um restaurante birmanês anunciado pelo guia de viagens. Logo atesto que o lugar não existe mais, e acabo retornando ao mesmo mercado noturno. Peço um frango com castanhas e arroz, sem cerveja desta vez. Cinco minutos depois, trazem-me um prato onde não distingo os pedaços fritos entre os legumes. Peles de galinha como torresmos em um óleo rançoso. É quando percebo que estou entre casebres de zinco, que do outro lado das barracas de comida existe uma fileira de minúsculas habitações com as portas entreabertas. Do lado de dentro, alguma iluminação amarela, e gente conversando, famílias inteiras à sombra, rindo e comendo. Cenas familiares, familiares porque me fazem recordar Os Comedores de batatas, só que ao invés de batata comem arroz, e não há mesa, não há lamparina, mas uma luz econômica pendurada a um fio em algum canto entre roupas empilhadas, panelas sujas e um calendário com a foto do rei.

Crianças brincam entre as motos. A contragosto, três vira-latas perseguem uma moto que atravessa a rua ao fundo.

Tebas e Corinto

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Eu sei, eu sei. Não estou em dia com os meus relatos. São esparsos, incompletos, intuem lacunas que soam mais a confusão que a artifício narrativo. O que fazer se os olhos mudam com a paisagem?

Torci o pé esquerdo semana passada. No dia seguinte havia um inchaço considerável, e aventei a possibilidade de ir ao hospital. Mantive contato com uma amiga no Brasil, muito querida, para quem enviei selfies do meu pé de tantas em tantas horas. No final, não precisei imobilizar; o inchaço diminuía. Mas precisaria ficar de molho no quarto por uma semana, e me pareceu desolador apenas conceber esta possibilidade. Havia comprado o bilhete de trem para Chiang Mai, a segunda maior cidade na Tailândia, que ficava a doze horas de trem ao norte e perto das fronteiras com Laos, Mianmar e China, em uma das extremidades da cordilheira do Himalaia. Chiang Mai, diziam, é mais tranquila e fresca que a capital. Com a iminência de minha nova partida, queria visitar vários lugares que tinha deixado para o final. Fiasco de viajante, amarguei. Uma torção no pé, um simples passo em falso. Eu não me enfiara numa floresta com babuínos raivosos, nem fizera manobras radicais com a minha moto. Não tinha escalado um paredão e nem tentara uma posição pouco ortodoxa nas aulas de ioga. Apenas torci o pé no último degrau, mais alto que os anteriores, de uma escada do Zaks no Sukhumnvit Soi 11, onde dançara durante algumas horas. Meus pés são voltados para dentro, o que costuma acontecer com fisiologias com pouco alongamento. Quando estou sentado, não consigo deixar as pernas fechadas por muito tempo. Elas sempre se inclinam para fora. Com as minhas dores lombares, a calcificação no ombro esquerdo, o pulso direito fodido e o joelho direito inconstante, meu corpo todo era um calcanhar de Aquiles. Velho. E agora sozinho, no alto de minhas tolas pretensões itinerantes.

Um drama, claro. Vão dizer: um verdadeiro melodrama. Não sinto tantas dores assim, estou exagerando. Eu nunca sei. A minha criação não contemplou o que não é tudo ou nada, o caminho razoável do cuidado não neurótico; ainda estou aprendendo – sempre – a lidar com a minha própria ambiguidade. “Viajo para conhecer a minha geografia”, é a citação de Suicídios Exemplares, de Vila-Matas.

As it turned out, no fim, no final, no fim das contas, a semana de reclusão revelou-se um descanso, uma revisão profunda, o ventre da baleia de modo tal como jamais poderia em uma cidade povoada de espaços familiares. Não sei se estou dramatizando aqui também. Colocar em palavras sempre produz esta ênfase. Ventre ou não ventre (a loucura pode ser um ventre sem saída de epifanias insofismáveis), lembrei-me de como ler e escrever num outro país são atividades que adquirem a densidade e a concentração que tinham na adolescência, essa espiral no tempo em torno do presente durante um ato. Ato de concentração e dispersão absolutas. Um silêncio interno na estranheza. E havia perdido isso. Em certa medida, seguirá perdido para sempre, porque adulto é preciso muita entrega (ou uma estabilidade financeira, afetiva) para calar as preocupações. Recomecei a ler 2666, a última obra de Bolaño, cujo personagem principal é uma cidade fantasma na fronteira do México onde mulheres pobres e sem nome são assassinadas às milhares e cujos corpos aparecem no deserto, como se pertencessem ao deserto, como se nunca tivessem saído daquela paisagem vazia. Bolaño consegue transformar o que é exótico em uma proliferação enigmática. Ele descreve o entardecer como uma rosa carnívora; em outro ponto, comenta que determinado piso rescendia a tabaco holandês; o deserto é um jardim petrificado, proliferando narrativas entre o sentido e a falta de sentido, feito uma boa novela criminal que nos pretende confundir a cada revelação, e apresentar verdades de passagem. O que significaria Testamento Geométrico, pendurado num varal como um ready-made de Duchamp? Por que um crítico italiano, outro espanhol, um francês e uma inglesa seguiriam atrás de um escritor alemão no México? E aqueles milhares de sonhos exuberantes que parecem um recurso ruim e repisado, mas que por sua profusão são tomados por nova luz? São muitas as mensagens. Uma das cenas que apresenta o quase-alterego de Bolaño, um sujeito chamado Amalfitano, segue assim:

- O exílio deve ser algo terrível – disse Norton, compreensiva.

- Na verdade – disse Amalfitano – agora o vejo como um movimento natural, algo que, a sua maneira, contribui para abolir o destino ou o que comumente se considera o destino.

- Mas o exílio – disse Pelletier – está cheio de inconvenientes, de saltos e rupturas que mais ou menos se repetem e que dificultam qualquer coisa importante que se proponha a fazer.

- Aí radica precisamente – disse Amalfitano – a abolição do destino.

Em um texto crítico Bolaño afirmava o exílio como a entrega do destino nas mãos do acaso. Seria o acaso, portanto, estes “inconvenientes, saltos e rupturas” que persigo e o que me diferencia de um escritor de renome que vai a algum festival qualquer de literatura, passa lá cinco dias tomando cerveja com os amigos e volta se gabando de que compreendeu a alma do país, como se tivesse realmente se permitido sair de seus trejeitos, seu círculo seguro de amigos e opiniões. Mas como a viagem poderá ser a abolição do destino? Não seria ela a sua consumação? Bolaño deve estar se referindo à determinação contingencial, a este pensamento nacional e introvertido. Se Bolaño continuasse no Chile aspiraria apenas à poesia chilena. Como saiu, pode dizer com Nicanor Parra que os quatro maiores poetas chilenos são três, Alfonso de Ercilla e Ruben Darío, que nem chilenos eram. Foram viajantes, gente de passagem, como Bolaño. O destino seria aqui uma restrição, a permanência em uma mesma posição. É fácil criticar o poeta doméstico e provinciano, os embates entre os poetas por uma respeitabilidade que os alce para além das monotonias da classe média; mais difícil é falar mal do velho artesão japonês, desde a juventude torneando o mesmo vaso. A repetição e a continuidade, contudo, não me soam a destino. Ou podem ser, mas precisam ser confrontados com o destino trágico: o jovem Édipo – do grego, Οἰδίπους, Oidípous, “pés inchados” – viaja para fugir ao destino e o reencontra, enganado pela ilusão de que o conhece. Édipo foge de Corinto após saber de seu destino pelo oráculo de Delfos. Seus pais, no entanto, são o rei e a rainha de Tebas, que abandonaram o filho aos lobos após ouvirem a mesma sentença do oráculo. Édipo não sabe que seu verdadeiro lar é Tebas; pois foi adotado ainda bebê pelo rei de Corinto. Édipo vai de Corinto a Tebas. Quanto mais distante, mais próximo está. Seu lar é um outro lar. Seu lar é a tragédia, do qual, para o qual, ele foge e encontra.

Já Bolaño viaja para que obstáculos obstem os seus tolos objetivos, o que ele vê como perfeitamente natural. Não somos impotentes frente aos deuses que traçam o nosso caminho. Podemos parar de jogar, boicotar o sistema, romper as engrenagens azeitadas. Bolaño vendendo bijuterias na cidade costeira de Blanes, Bolaño enlouquecendo de fome e solidão numa casa de campo, Bolaño como segurança de um camping nas cercanias de Barcelona, ou furtando livros na capital mexicana. O destino de Édipo não é o destino de Bolaño. Para aquele, uma travessia e um retorno a um lar maldito. Para Bolaño a abolição da ideia de lar, sendo o destino a estreiteza do pensamento assentada na imobilidade. Abolir o destino é o verdadeiro destino se queremos enxergar de modo mais amplo.

Eu não enxergo de modo mais amplo. Meus dias são absolutos, e por isso entro em pânico quando torço o pé, abandono as aulas de alemão e passo três dias escrevendo um comentário em um blogue que talvez não caiba em nenhum livro, mas que bem, são um diálogo interno e externo, uma elaboração. Mas se é preciso pensar mais grande, e daí tentar pensar ainda mais grande, com calma mas sem interrupções (devagar e sempre), devo tentar adivinhar o que estou fazendo aqui, mesmo sabendo que minhas conclusões são pequenas diante de meu destino. Concluo, por ora, que deveria abreviar os posts ao mais imediato, ao anedótico, e concentrar-me naquilo que está realmente se passando e que me ultrapassa. Cheguei aqui querendo tudo, ser jornalista, guia de viagens, fotógrafo e expedicionário. Agora só quero viajar devagar, manter-me, ler e escrever o meu livro. Não três livros. Apenas este, que durante meus dias de imobilidade recomecei a planejar. Escrevo atrás de estímulos que me escrevam. Para este um livro, que faz parte da coleção “Pequenos Exílios”, mas que integra também um plano maior, e que ainda se tornará maior. E neste livro escreverei aquilo que por pudor ou ambição, não ousei confessar aqui.

Estou em Chiang Mai, que é realmente mais fresca e amigável que Bangkok. Aqui farei as aulas de ioga, a meditação, entrarei em contato com as ongs de refugiados birmaneses e escreverei. Vamos ver o que mais me reserva.

Partida, Jogo

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Continuo perdido, mas pelo menos estou lendo Beckett. “Que horas são?” “A hora de sempre.” “Algo segue o seu curso.” Terminei a peça e saí do apartamento para mais uma aula de lindy hop, embora a vontade fosse de ficar escrevendo, ainda que eu não conseguisse escrever e estivesse me torturando com isso. Já na rua, sem caderno e com pressa para encontrar uma amiga, belas ideias (ou frases) se sucediam e perdiam a chance de uma leitura por terceiros, como quando esqueço a câmera e algo novo acontece. Ideias que me alimentavam – literalmente me alimentavam e me consumiam – o entusiasmo da abertura de um fiction novel, de um entusiasmo de juventude esquecido, ou apenas nostalgia. O retorno. Não tinha fome mas parei num lugar para comer, pedi o pad thai, pensando em como seria isso aqui se eu fosse outro, se eu fosse um homem sem palavras – como de fato sou – um homem que pensasse em contabilidades ou partidas de futebol, ou apenas em bundas e outras conquistas, mas isso era apenas o mantra do pensamento, de ainda querer caminhar apesar do encolhimento gradual de meu corpo. Avançar para resistir à morte do corpo. Sujeitar-me a acidentes. Ainda estava chateado com o sumiço das minhas únicas meias bonitas, que não voltaram da lavanderia; já desconfiava de tanta gentileza dos nativos. No mesmo dia encontrara os pijamas que esqueci pendurados no banheiro dentro de um lixo. Um lixo. Cheguei aqui abarrotado de ambições e elas foram sendo substituídas pelo atestado de uma latência, de uma morosidade que aprendi a acolher. A morosidade da sem-razão e do sem-projeto, algo bem budista. Tudo está e não está. Está na hora de abandonar algo.  Estou indo embora de Bangkok – já – porque preciso escapar do ruído e da fumaça de que estava farto antes de chegar. Não quero sair para dançar, mas eu gosto de dançar e eu preciso dançar para me libertar dos pensamentos. Vou pegar um trem para Chiang Mai e não consigo escrever uma palavra deste livro, deste projeto, destas pesquisas. Porque não quero nada disso, só quero estar aqui, obrigando-me a dançar, a conversar para não estar só, porque a história só continua no encontro. A pesquisa é essa. A pesquisa se dá porque sou incansável e estou sempre cansado. A pesquisa continua no descanso. Não os livros que eu trouxe de casa.  O meu corpo, sujeito a esta entrega, à errância e à dúvida. Só literatura, por favor, queria voltar para a literatura, queria que um sinal vermelho começasse a soar e me ensurdecesse a cada vez que eu tivesse alguma bela ideia de jerico de provar para dilacerantes outros internos (e externos, mas pra esses o remédio é outro, é o mesmo) que posso ser qualquer coisa. Calma. Encontro minha amiga na saída do metrô, que me apresenta uma outra amiga, e juntos vamos ao clube. Danço, escrutino os risos ansiosos e rijos no encontro dos corpos, ou os ombros tranquilos e dinâmicos. Aprendo o ritmo básico, ensaio com diferentes corpos. Arrisco fundir uns passos, perco o ritmo, volto ao passo básico. Proponho um novo passo, e transitamos para um segundo movimento. Depois, um terceiro. Depois reunimos todos em sequência, e os passos se intercalam naturalmente. Paro, achando que basta, mas volto para a pista. Me convidam para voltar ou eu me entusiasmo e volto por conta própria. Converso muito, já somos três conversando, depois mais dois ou três. Algumas conversas prosseguem, outras estacam. Risos ainda nervosos. À saída, todos já estão um pouco mais à vontade, prontos para começar. O último degrau da escada é mais alto que os outros, o passo em falso, o ritmo cansado se desconcerta, e torço o pé esquerdo. A dor é imensa. Eu conheço esta queda, sempre um pouco maior. Eu caio, sempre. Sempre algo assim. Só que pior. Trazem gelo, finjo que não é nada, que não se trata de um itinerário conhecido em minha geografia orgânica. Com o saco de gelo vou caminhando com as meninas até o metrô. Um acidente, uma interdição. O corpo que precisa avançar para não morrer. O processo inflamatório já segue o seu curso. O último degrau da escada. Tudo estava tão bem, mas há uma ferida que quer sempre me lembrar. A alergia, a pneumonia, a inflamação, o estalo. O corpo encolhendo, as ideias sem o caderno que as capture. Na peça de Beckett, existem quatro personagens. Dois estão confinados em latões. Um não pode se sentar, outro não pode se levantar. Antes das luzes se acenderem, os atores partilham os votos de boa sorte. Está tudo bem. Não há como evitar. Algo segue seu curso. A pesquisa compreende o algo, o seguir, o curso.

Calor

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O sono é um lugar privilegiado para novas experiências.

O sono compreende o que ao dia era apenas ruído, coceira, ardor.

O sono, pêndulo entre o ar e o abismo, é um impulso para o voo, quando não há sombra que puxe pelos cabelos, efeito da gravidade e do pesar.

Voo na horizontalidade vertiginosa, imobilidade desatada, pequena iluminação, apenas os pulmões inflando.

O ar em mim, o que me impede de submergir.

 

Em casa eu precisava sair e trabalhar o dia todo. Aqui, como tudo já é exterior, preciso deste quarto, e me permito ficar.

 

Precisa querer muito. O que te impede: confunde ou revela?

 

Vontade de dormir.

 

A cidade me desgoverna. O vapor da cidade me empurra de volta para o quarto, onde há um ar frio, potente, uma cama firme e o silêncio dos pássaros no parapeito. Posso me deitar no chão e abrir um livro sobre o budismo sem precisar ler. Posso tomar goles largos de água, trabalhar umas quantas horas, viver descalço.

 

A paixão precisa descansar. Não vale a pena. Já estamos de partida. Tudo já outra coisa. Não fico. Nunca me sinto só. Vou desfazer compromissos. Tudo o que quero é traduzir signos e voltar a cifrá-los. Retirar e devolver ao lugar, tomar umas cervejas, uma conversa.

 

Hoje é isso, e amanhã talvez de novo o vulcão desperte.

Bangkok Blues

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Na noite da sexta-feira retrasada estava tomando uma cerveja em meu quarto, e me lembrei de que aquela garota do casamento, me disse que precisava frequentar umas aulas de ioga porque eu tinha de fazer amigos o quanto antes, o que me inquietou um tanto; não que estivesse sentindo um impulso incontrolável de fazer amigos (havia acabado de chegar), mas de algum modo o comentário me lembrava uma outra garota que conheci em Buenos Aires, e que uma vez me disse que eu precisava fazer amigos, e eu estava bastante satisfeito com os que já tinha feito em tão pouco tempo. Tive muita sorte em Buenos Aires, mas em Bangkok poderia não ser assim. Já havia pagado um mês de hospedagem adiantado em um guest house que encontrei na internet, algo entre hotel e hostel, acessível e cômodo. Ao chegar, descobri que não havia absolutamente nada dos típicos albergue que conhecemos, nenhum bar ou espaços de confraternização com gringos de diferentes tonalidades de vermelho nas bochechas e uma variedade multiétnica do idioma inglês em voz alta no lobby, nenhum Hotel California na jukebox ou uma pequena coleção decorativa de edições Lonely Planet e quadros de notícias ofertando passeios super cools e em dólar. Ficar em um hostel não é tão divertido quanto já achei que poderia ser quando viajei de mochileiro aos quinze, dezesseis, dezoito anos, mas ao menos poderia ter a chance de topar com um grupo divertido, alguma viajante perdida, ou um ânimo empático. Não queria paredes coloridas, mas ao menos que este guest house onde estou não fosse tão escuro, vazio, com uma entrada empilhada de gaiolas com esquilos em pânico, um aquário, dois huskies dormindo o dia todo diante de um ventilador, e um dono que me cumprimenta como se espantasse um mosquito em câmera lenta. Evan é um jovem de Montenegro que a princípio me despertou uma inexplicável desconfiança. Talvez por ter me esclarecido, logo que cheguei, que não aceitaria a entrada de namoradas tailandesas, e eu, sem entender, fui informado de que se tratavam das namoradas profissionais, que não eram prostitutas, mas delicadamente solicitavam ajuda no aluguel em troca de companhia, sexo, cuidado, na esperança de que pudessem se casar e ir morar num país rico. Os farangs e as Tais, um turismo de ingleses barrigudos  e carentes que põem seus apartamentos nos países de origem para alugar, já amargam alguns divórcios e vêm à Tailândia para se aposentarem em alto e decadente estilo, passam as tardes beberiscando long necks numa mesa de bar, e as moças a tiracolo, trocando frases soltas num diálogo de inglês básico, em um cenário de algum outro tempo, retirado de um filme de guerra do Vietnã qualquer. Tais e farangs de mãos dadas são figuras familiares e francamente aceitas. Hoje vi um sujeito com duas jovens muito humildes, tomando um suco num café e fumando um cigarro. Era isso que Evan, o dono do guest house, me proibia de fazer por ali. Mas caso eu me interessasse, falou, baixando a cabeça em sinal de cumplicidade, me explicava como e onde eu poderia arranjar uma boa namorada, e para onde levá-la, caso eu quisesse me divertir.

Eu não estava me sentindo tão sem moral a ponto de estar disposto pagar por atenção, e não enxergava nada de divertido naquilo. Mas pensando que precisava começar a beber em companhia, e entusiasmado pelo efeito da Singha Beer local, comecei a enviar mensagens de encontro no site do couchsurfing, que reúne viajantes e locais e aproxima pessoas com interesses interculturais. Ainda não havia utilizado os recursos da página, e por precaução escrevi para umas doze pessoas residentes ou de passagem pela cidade, imaginando que uma ou duas acabariam respondendo. Vinte horas depois, oito ou nove mensagens apareciam na minha caixa postal, aceitando meu convite para tomar uma cerveja. Outras comentavam que já haviam passado por Bangkok e estavam a caminho de outros destinos. A primeira foi uma tailandesa simpática mas bastante reservada, que mora sozinha e trabalha num escritório, com quem provei de um macarrão com shimeji e bacon. Foi divertido, mas nada digno de mais comentários. A segunda foi uma norteamericana que havia vivido na Coreia do Sul durante um ano, e estava em Bangkok para escrever o seu primeiro roteiro de cinema. De novo, um bom almoço, mas apenas isso. O terceiro – desencontro – foi iniciativa de uma eslovena que vive em Xangai e passaria dois dias em Bangkok. Esta me parecia bem interessante, Mas nos perdemos na estação do metrô, porque não tenho um celular que acesse a internet, embora este chip fique me cobrando 100 Bahts a cada vez que recarrego o aparelho, por me oferecer uma imperdível internet ilimitada.

Havia algo frustrante, mecânico e previsível naqueles encontros. Acabei desmarcando alguns. Uma moça me convidou para um pub e inventei uma desculpa. Um pub? Faça-me o favor. A moça do casamento havia desaparecido, disse que trabalhava muito, voltava no dia oito. Um camarada bem simpático, brasileiro e residente aqui era uma feliz exceção, e apresentava um contraponto às minhas próprias impressões do país. Enquanto isso, eu me preocupava e me enroscava com as pautas que pretendia tratar, ainda sem haver contatado muita gente para entrevistas e ainda disperso em tantos sightseeings.

No fim de semana, uma grega me convidou para uma aula de “hop blues não sei das quantas”, seguida de uma festa. Bora. A moça, arquiteta, chegou com uma espanhola, professora de harpa. Conversamos. Os primeiros passos eram fáceis. Mas daquela aula para a proficiência dos dançarinos da pista durante a festa foi um salto vertiginoso. Havia poucos homens e as garotas me tiravam. Uma alemã. Uma tailandesa. A grega, já divertida. A espanhola, uma francesa. Uma inglesa, uma americana. Eu me desculpava pelas pernas tortas, e não parava. Às vezes caía nos passos do forró. Talvez estivesse dançando uma mistura de salsa e forró. A cerveja era cara, e descia fácil. Lá fora tinham decretado estado de emergência, ficamos sabendo que houve tiroteios entre os anti e os prós. Beber era proibido, mas qualquer controle rigoroso estava impraticável, e bebíamos Leos e Singhas ao som de New Year Blues e umas outras coisas insanas dos anos 1930, ou 1940, ou 1910. Às vezes os círculos se formavam ao redor de um casal. Vinha outro, ficavam girando. A banda ao vivo se exaltava, e o saxofonista entrava na roda para  acompanhar os casais. Todos aplaudiam, queriam conversar e eu já achava muita graça dos tailandeses de boinas.

Os Tais

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Bangkok tem as dimensões de São Paulo (1569 km2 em BKK, 1530 km2 em SP). Possui mais veículos motorizados, mas o tráfego é um pouco mais fluido, porque os automóveis são menores e vão se esgueirando entre si. O ar é denso como se você estivesse sempre no interior de uma oficina mecânica. Como no Reino Unido, as mãos são invertidas. Existem dois tipos de transportes municipais sobre trilhos. O metrô subterrâneo (MRT) e o suspenso (Skytrain). Para cada um deles há um bilhete único distinto. As áreas verdes são escassas. A mais conhecida se chama Lumphini Park, um parque tranquilo e habitado por corvos enormes e inquietos. Shopping Centers são empreendimentos salomônicos.

Os tailandeses são mesmo muito simpáticos, e qualquer sorriso é correspondido por outro, visivelmente divertido. Sim, estão sempre querendo oferecer algo, mas esta é a regra do jogo. Fumam segurando os cigarros com as pontas dos dedos, chamam com as palmas para baixo (palmas para cima indicam chamar pra briga). Tailandeses são magros e as mulheres não têm curvas, suas pernas são finas e compridas. Meninos tem traços tão delicados quanto os das meninas, e gays são mais francamente aceitos do que em nossa cultura, e por consequência, manifestam-se mais livremente. Você não vê beijos homossexuais porque você não vê beijos de nenhuma espécie. Cumprimentam com apertos de mão – o que eu fui descobrir da pior maneira, após uma situação muito, muito constrangedora.

A sociedade tailandesa se assenta na estrutura familiar. Perto de onde estou há um restaurante, uma estrutura metálica montada na rua, diante de uma garagem que também é cozinha e escritório. O pai cobra e organiza o fluxo das mesas. A mãe maneja as águas turvas ferventes, de onde vai pescando as pastas de arroz e as salsichas de porco esféricas que se parecem com testículos (quase sem gosto, esponjosas), ajudada por uma das filhas que corta os frangos empanados e monta os pratos. As outras filhas, muito jovens, estão sempre mexendo umas com as outras e servindo as mesas. Elas parecem acometidas por uma enfermidade que as torna mais alegres quanto mais trabalham. Os Tais, aliás, estão sempre trabalhando. Não basta colocarem a barracas de fruta e aguardar os clientes. Fazem uma verdadeira escultura com cada porção, retiram as sementes das melancias e os espinhos dos abacaxis. Você não vislumbra a possibilidade de uma garçonete entediada, reclamando porque ganha pouco, frustrada, e almejando um apartamento só para ela, mais autonomia e uma ruptura violenta com a geração anterior para afirmar uma identidade. A identidade aqui se apoia na tradição e na obediência, e não na ruptura. Os jovens só saem da casa dos pais quando se casam. E se não casam, permanecem com os seus genitores, tenham quarenta, cinquenta anos, não importa. Cada casa ou comércio possui uma minicasa. Um pequeno altar, com bonecos coloridos, arranjos florais e luzes douradas. São os espaços reservados aos espíritos do lar, uma forma de agradecer-lhes a hospitalidade e garantir uma vida doméstica feliz.

Os tais veneram seu rei. Diderot encalhou nos Urais e não chegou até aqui. Há imagens da família real por toda a cidade, ornadas por enquadres dourados. Eles adoram dourado. Quando começa a tocar o hino nacional nos auto-falantes, todo mundo pára, braços ao longo do corpo, até que a música termine.

Há uma disparidade social aguda, os pobres camponeses concentram-se no nordeste, a classe média urbana no sul, os muçulmanos recuados no extremo sul, e campos de refugiados ao longo das fronteiras.

O país é escandalosamente barato. Grande parte dos apartamentos não têm cozinha, porque as pessoas comem na rua. Um bom apartamento para uma pessoa ou um casal custa entre 400 e 500 reais de aluguel. Lavar e secar a roupa, R$ 2,5 o quilo. Uma batata Lays, R$ 1,7. Um arroz com frango crocante sai entre R$ 3,30 a 4,10. Nos shoppings e restaurantes, o preço do prato sai entre R$ 7,50 – 9,10. As porções, contudo, são menores que as nossas, e por isso se pode beliscar mais vezes ao longo do dia. Bilhetes de metrô por volta de R$ 2, bilhetes de ônibus, entre R$ 0,60 a R$ 1. Um táxi, se te roubarem vai sair por uns R$ 15. O azar é que a cerveja custa caro, o que pode levar embora toda a economia que você logrou nos seus custos mensais. Nas festas, os tailandeses costumam comprar garrafas de uísque e dividir entre eles, o que deve sair mais barato.

Aqui, um lanche da tarde é uma fruta numa barraquinha, picada na sua frente e servida dentro de um saco plástico e um palito para beliscar, e que custa R$ 1,20. E há pequenas lojas em shoppings que vendem saladas fartas e bem montadas, e que não são uma Caesar ridícula de R$ 16 como em São Paulo, mais R$ 3,50 com molho extra, mas honestos R$ 2 a 3. Nas ilhas ao sul, tudo custa o dobro. O norte, dizem, é ainda mais barato que Bangkok.

Não há fiscalizações ou vigilância sanitária de qualquer espécie, e nem parece possível com a quantidade de gente e negócios informais que se vê. Não fosse a coesão oferecida pelo budismo, o país já teria entrado em colapso ou estaria nas mãos de um partido único, ou de uma junta militar, o que aliás já aconteceu por aqui ao longo de todo o século XX. Nas escolas as crianças têm aulas de meditação e ioga, e não de futebol.

Os Tais são criativos para se vestir e fazem dos bermudões com camisas estampadas dos turistas parecerem fantasias ubuescas. Sabem combinar cortes sofisticados com a leveza exigida pelo calor (temperatura entre 25 a 35 graus todos os dias do ano). É comum observar estudantes de uniformes saias prendadas. São um povo bonito, e dependem dos farangs. Os farangs somos nós, os estrangeiros. Tais e farangs nem sempre são uma boa combinação. Farangs estão aqui há centenas de anos, e são muito bem-vindos pelos Tais. Farangs estão por toda parte, e há de muitos tipos. O país é moldado para acolher farangs. Farangs são altos, loiros, e transformam cartões em dinheiro. Farangs são dinheiro. Andam devagar, e criaram instituições que exigem uma investigação à parte.

Um casamento

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Ela é tailandesa, tem um rosto delicado, olhos amendoados e está diante de mim na mesa do café. Articula um inglês impecável, e preserva algo de um recato quase arrogante, acusando esta confusão entre o cosmopolitismo e a ostentação, típica dos jovens ricos dos países pobres. Eu pedi uns pretzels e não consigo comer. Mastigar parece uma brutalidade. Destoando da reserva com que me trata, passa a me ofertar encontros. Convida-me a acompanhá-la a um casamento no dia seguinte. A alta elite tailandesa estará presente. Trinta damas de honra, toda a pompa. Devo alugar um terno. Busca endereços na internet e anota um deles em meu caderno: “Mostre isto ao taxista, ele saberá onde fica.” Diz que estará ocupada na semana seguinte, mas que em duas semanas poderá me levar a vários lugares. Podemos viajar, ela diz. Vamos viajar. Quer me passar uma lista de filmes. Está disposta a suspender temporariamente o seu trabalho para me revelar tudo o que puder de sua cultura e dos seus costumes. Quer me contar do budismo theravada, deseja apresentar o seu irmão, que se ordenou monge no ano passado. Fala do ano que viveu nos Estados Unidos, da faculdade em Londres, de seus trinta e um anos, do negócio familiar que organiza de importação de brinquedos da China, de onde descendem. Eu não sei como agradecer, e ela não pede isso. A troca que combinamos foi de aulas de português por estas, de cultura. Menciono o livro que estou escrevendo, dos artigos que tenho em mente. Digo que sempre fui autodidata, que as coisas que busco não cabem numa área de conhecimento. Ela se anima quando falo nisso. É guia de viagens e está debutando. Acabou de abrir uma agência. Bangkok é o ponto de chegada e de partida para todos os países do sudeste asiático. Digo que irei para Laos e Camboja em breve, ela contesta que devo ficar mais tempo, que não devo ter pressa. Menciono a temporada de chuvas, que deve ser difícil viajar pelo país nesta época, que penso em ir para o norte. Ela discorda com veemência, diz que para o meu projeto preciso levar o tempo que for preciso. Em algum momento, sinto que preciso comentar algo das aulas de português, que me empenharei muito em ensinar-lhe, e ela comenta que sempre achou a língua portuguesa dos brasileiros muito sexy. Que acha muito sexy a palavra “porta”, e eu não contenho o riso, porque ela fala “porta” com sotaque caipira. Genial, so cute. Peço desculpas. “O Brasil será a China em vinte anos”, ela diz. Mas não parece muito interessada nas aulas de português. “Isso não importa tanto.Não precisamos nos preocupar com uma estrutura rígida nas aulas. Iremos conviver muito, e eu acabarei aprendendo bastante. Alugue o terno. Esteja bem bonito, talvez você consiga descolar uma garota.”

É sexta-feira, e saio de lá achando que tudo está caminhando perfeitamente. Tinha passado a semana sozinho, o que foi ótimo, mas com o fim de semana pelas frente as coisas mudavam. E descolar um casamento no meu primeiro sábado não era nada mal. Cinco dias depois da minha chegada. Alugar um terno em Bangkok. Devia desconfiar de algo? Confiar é uma projeção, uma escolha: arriscar-se em troca de mais confiança. Entregar e criar expectativas difusas. Esperar o inesperado, baixar a guarda. Viagem.

Acordei tarde no dia do casamento. Havia tomado um par de cervejas na noite anterior, e o calor fez o resto. Mas a loja de aluguel de ternos fechava às cinco, e o casamento era às 18h30 e não havia com o que se preocupar. O aluguel sairia por mil bahts, uns oitenta e poucos reais. O depósito mais mil. Iria incluir no conjunto uma camisa e um par de sapatos, e por isso levava três mil. Parei um moto-taxi e apontei ao motoqueiro a caligrafia de Qy com o endereço onde deveria ir. O homem assentiu. Pediu 200 bahts pela viagem. Me entregou um capacete. Montei na garupa e fomos.

Atravessamos a cidade inteira. Ao menos era o que parecia. Pareceu uma loucura, apanhar uma moto numa cidade de trânsito mais caótico, campeã de acidentes e atropelamentos. Em São Paulo, não pegaria uma marginal pinheiros daquela nem que me pagassem. Por que ali, num país desconhecido e sem seguro médico eu me arriscava daquele jeito? Mas eu sentia confiança. Confiança é um lance perigoso. Chegamos na loja, e comecei a provar de tudo. A moça queria me vestir uns trajes bizarros. O gosto deles. Algo o mais sóbrio possível. Falei onde seria o casamento, e eles comentaram “casamento muito caro”. O terno era mil. O depósito dois mil. mais sapatos e camisa, tudo ficava por três mil e quinhentos. Eu tinha três mil. Não aceitavam cartão. Eu estava numa ruazinha no meio de nada, longe de metrô, de skyline, de qualquer universo minimamente conhecido. Passara das três, e eu perderia o casamento.

Não podia de tanta frustração. Escrevi um sms para Qy, ela respondeu: “Acho que imaginava que você não iria mesmo, não sei porquê. Mas de algum modo eu já sabia. Mas tudo bem. É uma pena. Mas tudo bem.” Respondi dizendo que eu não sabia. Que estava muito frustrado. Que havia trazido mais do que o dinheiro que comentaram ao telefone. O fato é que eu ouvira errado, e fora imprudente, achando que estava sendo prudente. Ela me ligou cinco minutos depois, dizendo que não havia ficado chateada, e que eu não me exasperasse.

Agora que já tinha cruzado a cidade de moto, peguei um tuk-tuk e fui para khao san road, o gueto dos turistas da cidade. Rodei entre as lojas de camisetas e as barraquinhas de pad thai, noodle soup e escorpiões pretos fritos e besouros transparentes. Sentei em um lugar qualquer e pedi uma cerveja. “Não podemos vender, senhor. Amanhã é dia de eleição.” Olho para os lados, e está todo mundo na coca-cola e no resfresco. Não era o meu dia. Continuei andando, afastei-me da agitação e encontrei adiante um inferninho disco. A coisa estava animada lá dentro, e é claro que serviam bebidas. As primeiras três long necks desceram rapidamente, e já estava dançando. Mas não queria ficar ali. Saí, e três quarteirões adiante, em um bar de rua em um beco também servia-se de tudo. Um italiano que parecia o enfermeiro de Hable con ella puxou papo. Perguntei o que fazia, e ele comentou que era farmacêutico em um hospital. Logo veio um casal, um holandês e uma argentina. Pedi a quinta garrafa, e a sexta. Duas suecas de tatuagens e piercings tomavam um uísque caseiro muito escuro. Comecei a conversar com a argentina e me senti em casa. Falei do casamento, contei a peripécia toda. No dia seguinte, escrevi para Qy, perguntando como havia sido. Respondeu com uma lista de filmes de luta estilo bruce lee, e sagas de grandes reis, para que eu fosse me inteirando dos aspectos da “taicidade” antes de nos encontrarmos.