Uma vez assumida, toda grande decisão torna-se complexa e se prolifera em dezenas de providências, exige uma multiplicidade de pequenos conhecimentos, adquiridos a rodo quando se tem fome e pressa. E quando a gente se dá conta já não sabe muito bem qual o próximo caminho, simplesmente porque as alternativas são tantas e tantas as ideias, e cada uma se subdivide em outras várias que o processamento cerebral substitui a subsequência metódica num dardejar explosivo de sinapses. É uma trama de possibilidades, e apenas contemplá-las te entretém o suficiente para que você fique apenas nisso, numa árvore de futuros frutos – abstrações, argumentos e contra-argumentos, referências e ações concretas. E se tomamos uma segunda decisão, e uma terceira, e se cada uma corresponde a uma série de ações, esta tomada desencadeia então outro cenário, que dialoga com os anteriores.  Perder-se é fácil. A imensidão também pode assustar. A euforia advém como um pavio que queima rápido demais. Contar até dez, ressuscitar as perícias de jardinagem. Porque organizar uma vida (os dias no tempo) é como montar uma obra. A obra dialoga com os dias e seus limites.

Para viajar e escrever, conclui que precisava me preparar desde SP. Elaborei as entrevistas. Mas para fazer as entrevistas, precisava de uma boa câmera. Tinha de escolher uma, entre Canons e Nikons de tantos tipos diferentes. Qual a diferença entre eles? Quanto estaria disposto a gastar? E as lentes?

Está tudo na internet. Pesquisando um pouco, encontrei o site de Franc López (http://outteresting.com/equipo-fotografico-que-me-llevo/), e botei fé nas dicas. Apresentei as opções ao grande amigo e fotógrafo Chico Rivers, ou Rios, que me orientou a comprar uma Canon 600D, com lentes de 15-135mm e 50mm. Pesquisei preços na internet. Na americana B&H, o conjunto sairia US$ 1020 (R$ 2,200). Na Fnac de Madri, uma possível escala de minha viagem, 1100 euros (R$ 3,254). Na Fnac brasileira, R$ 6,000.

Triste pensar neste desestímulo que os impostos de importação criam à produção audiovisual no país. A diferença é enorme. Não iria comprá-la aqui. Foi aí que o Rios me indicou uma loja na 7 de abril, a AngelPhoto. O conjunto saía por R$ 3300. O valor era praticamente o mesmo que gastaria na Europa. Era 50% a mais que nos EUA, mas quase a metade do que se eu comprasse na Fnac. É claro, poderia buscar outras lojas na 7 de abril, no centro de São Paulo, e provavelmente encontraria preços parecidos. E nas galerias dos contrabandos, poderia encontrar até mais barato que isto. Mas preferi ficar com um original com garantia. Tenho más experiências com estas tendinhas. Comprei dois celulares ali e não dei sorte com nenhum. Com um investimento desses não poderia me arriscar.

Estava montado o meu jogo. Adicionei ao conjunto as lentes UV (R$200), um kit de limpeza (que me saiu de brinde), um cartão de memória especial (SDHC, 45MB/s, 32GB, R$ 170) para videos em full hd, acabei pagando R$ 3600 em quatro vezes no cartão. Ainda vou comprar uma bateria extra e um parasol, mas creio que a essência do material é isso aí.

Image

Um aparte. Por um momento, confesso, babei na Canon 5D Mark III, a top de linha das Canons. A maioria dos videos selecionados pelo site Vimeo são feitos com esta câmera. Mas apenas o corpo da câmera custava R$ 11,000 na 7 de abril, e a diferença da imagem não me parecia crucial neste momento. 

Se a Tailândia der certo, compro esta antes de ir embora. Com preços de tigre asiático.

O passo seguinte: aprender a mexer no brinquedo. Nos últimos três ou quatro dias, passei umas 40 horas em tutoriais na rede para enfim começar a operar nas variáveis da opção Manual de uma câmera: abertura, obturador, sensibilidade, foco, qualidade da imagem, configurações básicas ideais para filmar com a 600D. Qualquer fotógrafo que se preze precisa sair do automático algum dia. É vergonhoso que alguém que aprecie a fotografia como eu, que já saiu em excursões para fotografar, que chegou até mesmo a revelar as próprias imagens em laboratório, a fazer pin holes ainda recorresse ao preguiçoso A. Eu até tinha consciência dos princípios gerais, mas tinha na cabeça que nunca configuraria uma câmera com precisão no momento exato de um sorriso, de um olhar efêmero que desejava registrar. Bobagem.

Aproveitei que estava aqui, ganhando uma corzinha na frente da tela e fiz um levantamento dos restaurantes tailandeses da cidade. Integrei-me ao grupo de Expats Bangkok (estrangeiros na Tailândia) e ao ABT, a Associação de Brasileiros na Tailândia. Ouvi músicas pop e outras regionais, e com a minha tia descobri que o país é um pouco menor que Minas Gerais e alcançou uma estabilidade política apenas em 2010. Encomendei um livro de comida tailandesa na Livraria Cultura, comprei O caminho zen, do Eugen Herrigel, e uma edição especial da National Geographic Brasil, apenas pra me inspirar. Por fim, baixei o pdf da edição inglesa de 2012 da Lonely Planet da Tailândia, pra saber o que tem ali, e compartilhar o que interessa.

É o que eu dizia: muitos, muitos caminhos.

 Image

 

Anúncios